A Psico(político)patia

Há dois aspectos na política que necessitariam ser muito bem avaliados pela sociedade:

Primeiro:

 Ocasionalmente somos brindados com um comercial de cunho político. Repetitivo, morno, enjoativo. Um dos principais motivos para justificar o uso da tecla mute. Um produto que interessa ao próprio protagonista do comercial, e a seus parentes ou amigos muito, muito próximos. Antes eu emudecia a TV, mandava as crianças saírem da sala (principalmente durante a avalanche nos horários políticos obrigatórios pré-eleitorais), preocupado com os paradoxos morais inexplicáveis (o cara era grande, roubou, tripudiou, renunciou para não ser cassado, voltou vitorioso e rico nos braços do sistema… pai! então o crime compensa?) Agora, mais velho, quando não voto mais em ninguém, me bateu uma curiosidade quase acadêmica de avaliar o que aquelas criaturas insípidas vomitavam em minha sala. Se você se der ao trabalho de ouvir as mensagens, e avaliar tecnicamente aquele produto de má qualidade, que lhe enfiam em horário nobre, por força da lei, vai observar alguns pontos interessantes e reveladores. Todos os candidatos dizem as mesmas coisas. Num momento estão no poder e enaltecem os mesmos pontos que criticavam quando eram oposição. No momento seguinte são oposição e criticam os mesmos pontos que antes enalteciam e que agora são defendidos veementemente pelos que antes criticavam. Todos prometem os mesmos clichês que vão ser imediatamente esquecidos consolidada a vitória nas urnas. Todos que perdem criticam o não cumprimento das promessas políticas que igualmente não cumpriram quando foram vencedores. Todos não tem o mínimo conhecimento do que é uma ideologia política, e os abraços de palanque chocam pela negação de ódios históricos tão recentes que chegam a estampar personalidades múltiplas, dualistas e ambíguas. E a superficialidade do que é dito pode ser comparada com as entrevistas de um jogador de futebol assediado por repórteres ávidos por qualquer bobagem. Mas isto não é o mais impressionante! Se você prestar bem a atenção na fala de alguns deles você verá nos olhos, nos gestos, e na veemência do que expressam que eles realmente acreditam no que estão dizendo. Com o tempo (e a vida tem me permitido isto) você constata que nada daquilo era verdade. Era retórica oca. Palavras encadeadas para preencher o espaço do comercial. Uma mentira deslavada que fica impune porque ninguém mais presta atenção ao que eles estão dizendo. Muito menos há alguém que se preocupe em confrontar o que é propagado com o que é posteriormente feito. Mas eles parecem, naquele instante, pessoas sinceras, honestas, preocupadas com o cidadão que pelo voto vai empregá-los. Mas aonde fica a consciência desses indivíduos? É tudo um teatro? Fingimento convencionado para que a massa burra permaneça acreditando que o sistema é democrático?

Segundo:

Todo bom senso, de qualquer um de nós, justifica a negação do valor de uma ou de um conjunto de leis. Devemos saber todas as leis para poder desobedecer as estúpidas. E mesmo quando você pensa que está desobedecendo uma determinada lei, pode acreditar que há outra, com algum parágrafo, ou alguma linha, que justifica a sua desobediência…tudo dentro da lei. Nas esferas políticas o bom senso, segundo o auto-conceito de alguns, permite passar por cima da legislação, como um todo, porque a consciência destes indivíduos racionaliza que aquele que governa para todos não pode se prender a coisas pequenas como o direito de um cidadão comum. Justificam: é muito difícil governar! O bem do todo deve prevalecer sobre o bem de alguns! E o conceito do que é certo ou errado se perde porque tais indivíduos vivem acima das leis. Assim como há o marginal que consideramos um fora-da-lei, há aquele que se julga acima da lei, e que, também, é um fora-da-lei. Seus atos ilícitos lesam milhares. Sua permanência no poder usa de manobras e conchavos vergonhosos. E embora os seus atos sejam públicos,  e montanhosos os processos, conseguem manobras que os inocentam, nos citados desvios das leis, adaptados aos seus sensos de justiça e consciência. E aqui, novamente, vale a constatação anterior: Aparentemente eles acreditam nisto! Eles se sentem injustiçados! Esta é uma terrível constatação. Na minha terra estes dois relatos caberiam em qualquer compêndio de psiquiatria como um desvio de conduta. São psicopatas.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Política, Realidade

Tags: , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

9 Comentários em “A Psico(político)patia”

  1. Franci23 Says:

    Nossa dessa vez você falou tudo de uma forma direta e sincera.
    E na parte onde você disse que eles realmente acreditam no que dizem, de certa forma eu nunca tinha parado para pensar nisso mas indo mais afundo nesse assunto até acho que você tenha razão pois aquele monte de asneira que eles vomitam em nossas caras sem usar um mínimo de pudor não podiam ser de pessoas que tem consciência do que falam!

  2. Romacof Says:

    Ana, o psicopata se considera normal. Há quem afirme que o normal não existe. Existe, sim, uma gama infinita de maiores ou menores desvios, e a normalidade seria a média convencionada que permite a interação entre as pessoas, de forma livre, sem invasão do direito dos outros. A lei existe para por em um “gibi” regras que permitam delimitar esta alegada “normalidade média”. O grande problema está no senso crítico daquele indivíduo que está “fora do gibi” mas não tem a percepção disto. Podemos até afirmar que o fora-da-lei marginal é produto de nossa sociedade torta, sendo até um cara normal que não encontrou a saída, mas os fora-da-lei do olimpo são os que ditam de cima para baixo as normas que entortam a sociedade. Se existe um inferno é certo que estes têm cadeira cativa.

  3. Ana Says:

    Pois é, e como fomos parar com psicopatas no governo…?!

  4. Romacof Says:

    Eu sou, dizem, muito “fazido” e debochado. Não libertino, só não resisto a uma bola quicando na frente do gol, sou obrigado a tirar meu sarro, não no sentido bolinador, e isto cria uma casca que me permite conviver, inclusive profissionalmente, com os filhos da puta que há em todos os nichos. Veja Franci23, tem um blog com reclames (como se dizia no meu tempo de novo), e os frequentadores do espaço dele vão em busca de metal-pesado, piadas, e videos permissivos. Romacof e Franci23 não são pessoas absolutamente normais. Mas usam sua liberdade sem estrupar a paciência nem o espaço de ninguém. O grande problema é que a grande massa não bate bem e quem não bate bem também não vê muito longe. Num país de cegos quem diz ter uma bengala e um cão é aclamado rei.


  5. Romacof, este texto me fez pensar bastante… mas eu lembro de um discurso do Tarso Genro no Fórum Social Mundial que me coloca em dúvida em relação à afirmação de que “Se você prestar bem a atenção na fala de alguns deles você verá nos olhos, nos gestos, e na veemência do que expressam que eles realmente acreditam no que estão dizendo.”

    Eu assisti aquele discurso bem de perto, com muita atenção, observando cada expressão, cada pausa, cada gesto, cada escolha de palavras. Fiquei impressionado com o fato de as pessoas a meu redor parecerem estar acreditando no que o Tarso Genro dizia, porque para mim estava claro que ele estava escolhendo com tanto cuidado cada palavra porque precisava “jogar para a platéia” e estava dizendo um monte de coisas nas quais não acreditava.

    É inegável, entretanto, o aparente convencimento da maioria dos políticos em suas próprias palavras, como bem denuncias. A má atuação do canastrão Tarso Genro no Palco do Fórum Social Mundial foi apenas o estopim que me levou a observar o fenômeno de modo mais freqüente.

    Se existem mesmo os políticos que acreditam nas abobrinhas que discursam veementemente, tens razão em afirmar que estes são verdadeiros psicopatas. Mas depois daquele discurso do Tarso Genro, nunca mais subestimei os níveis de cinismo e de maquiavelismo a que um político cara-de-pau pode chegar.

    O que me assusta é que, quanto mais próxima da verdade estiver a tua constatação, mais doentes mentais estarão gerenciando o país, e quanto mais distante estiver, devido ao descaramento dos atores desta farsa, mais safados e pilantras estarão gerenciando o país.

    Êta dilema.

    • Romacof Says:

      Arthur! Você pegou pesado nos dois lados: O Tarso é inteligente (portanto perigoso como manipulador), e você é um crítico consumado, e estava de olho no cara enquanto os meneadores ao seu lado babavam. De qualquer forma o maquiavélico também não é muito são. Questão sem saída. O próprio indivíduo que concorre não está em seu juízo perfeito. A política é de tal forma nauseante que concorrer indica ou uma inocência acompanhada de uma vaidade doentia, ou uma maldade e premeditações doentias. A política está doente. Os níveis de relacionamento dentro da política não se interessam pelo bem público. E isto, se acontecer, foi um feliz acidente de percurso. A tônica é governar pelo poder, pelas vantagens, pelo orgulho, e para acreditar nas próprias mentiras, piamente.


      • “De qualquer forma o maquiavélico também não é muito são.” (Romacof)

        Bá, é mesmo!

        Aí já não é um dilema, é um imenso labirinto apinhado de armadilhas.

        “O próprio indivíduo que concorre não está em seu juízo perfeito.” (Romacof)

        Outra triste verdade que ouvi inúmeras vezes quando anunciei que pretendia concorrer a vereador em 2012. Eu padeço de surtos recorrentes de ingenuidade e esperança e não consigo me livrar disso.

        Felizmente eu percebi a tempo que a via que eu pretendia usar estava tão comprometida que não havia modo de chegar ao final do caminho com dignidade, então pulei fora (ou melhor, nem regressei, porque eu fui fundador do Partido Verde no Rio Grande do Sul) e comecei a planejar outra coisa.

        “A política é de tal forma nauseante que concorrer indica ou uma inocência acompanhada de uma vaidade doentia, ou uma maldade e premeditações doentias. A política está doente.” (Romacof)

        Exato. É exatamente isso. Eu estava sendo ingênuo e vaidoso ao acreditar que poderia ingressar num mar de lama e sair limpo. Mas o descaramento dos artigos 39 e 53 do estatuto do PV é tão grande que abriu meus olhos. E o show de hipocrisia dos Verdes do Brasil, um grupo de dissidentes do PV que está montando uma legenda própria, expresso no artigo 78 do estatudo deles, foi a pá de cal sobre minha esperança de fazer política com decência dentro de qualquer um dos atuais partidos políticos.

        MAS

        Como eu falei, eu não desisto. Tem que haver um meio de furar o bloqueio e recuperar valores decentes como honestidade e solidariedade na política. Assim como fez Zamenhof, que por não encontrar uma língua adequada para os contatos internacionais resolveu criar uma, também eu, por não encontrar um canal adequado para expressar na política estes valores, pretendo criar um.

        O que a gente não pode fazer é desistir deixar os safados ganharem no cansaço, como a maioria do povo já fez.

        • romacof Says:

          Também já tive coceiras! Nada que um bom mata-cura não resolva. Lá no meu Blog (lembra? o Cágado) acabei de confessar meu passado de gestor. Se eu não tivesse entrado eu estaria dizendo até hoje: “Eu teria feito diferente”. Entrei. Fiz Três Cachoeiras ser o primeiro em saúde em 2000. Números. Índices. Inverdades. Náuseas. Mas você tem razão. Já que a internet é um grande ventilador: merda neles.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: