O necessário ato de ensinar

Leio entre os editoriais de ZH de 24 de setembro o ponto de vista do Professor de Direito Constitucional, Antonio Marcelo Pacheco. O texto fala da ação da professora que puniu os alunos que picharam a própria escola. Punição é uma palavra que carrega o sentido de agressão. No caso os alunos pichadores ganharam a oportunidade de “despicharem” a escola. Já que a escola limpa é um direito de todos, inclusive dos pichadores. Não foram realmente punidos. Tiveram uma aula prática de cidadania, que – e tenho certeza – não foi adequadamente assimilada por todos. O Professor Antonio afirma que “em nome da mesma cidadania que buscou defender, a professora agrediu a cidadania do outro”. Vamos até as definições simples, compreensíveis, além da terminologia jurídica, que inibe e confunde o cidadão simples, nós, a grande maioria, os que movimentam este país. Cidadania é a “qualidade de ser cidadão”. Cidadão é o “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”. Não me consta que o ato de pichar faça parte dos direitos citados, e nem seja um dever do cidadão. Repetindo: Cidadania é a “qualidade de ser cidadão”. Se um indivíduo não se comporta como um cidadão não merece a cidadania como qualidade. Nenhuma cidadania foi agredida, pois não tínhamos, naquele ato específico, cidadãos a serem respeitados. O vândalo, o ladrão, e o corrupto, podem receber estes rótulos em consequência dos atos que os definem como tal. Podem ser indivíduos mal orientados, ou psicopatas. Em suas vidas “normais” podem agir como cidadãos, mas em seus atos “anormais” não merecem ser tratados como cidadãos. Aliás, os principais problemas deste país são a imunidade em nome da cidadania, a impunidade filha da morosidade jurídica, e a falta de educação. Um dia eu picho a parede da escola e nada me acontece porque a minha cidadania foi respeitada. Depois eu roubo uma bicicleta deixada de forma descuidada porque só eu vi. Amanhã eu roubo o país, sob o aval de meus direitos civis e políticos, ou porque desempenho meus deveres constitucionais. Parece que falta um capítulo no ensino dos Direitos Constitucionais. Uma salva de palmas para a professora. Uma pioneira. Que seu exemplo seja seguido. A outra opção é deixar como está e esperar piorar até que a indisciplina nos leve a uma guerra civil.

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5 Comentários em “O necessário ato de ensinar”

  1. Franci23 Says:

    É engraçado pois aqui no Brasil tudo é meio distorcido, Cidadania na maioria das vezes só servem para bandidos, não que eu esteja chamando o garoto que pichou de bandido mas isso é vandalismo e a punição é o melhor caminho para conter.
    Parabéns para a professora e que as pessoas a exaltem.


  2. Romacof:

    Entendi o que quiseste dizer com “não tínhamos, naquele ato específico, cidadãos a serem respeitados”, mas não vai faltar um purista para enxergar um “cerceamento de cidadania” e te criticar (bobamente) por isso.

    Acho que há outra maneira de dizer a mesma coisa sem dizer que em determinado momento o indivíduo não é cidadão: reconhecendo que cidadania é um conjunto de direitos e deveres que quando cumpridos geram algumas conseqüências e quando descumpridos geram outras conseqüências.

    Por exemplo: o indivíduo que cumpre com seus deveres eleitorais mantém o direito de obter um financiamento público, enquanto o indivíduo que não cumpre com estes deveres perde o direito correspondente.

    Outro exmplo: o indivíduo que não infringe a lei penal resguarda o seu direito à liberdade de ir e vir, enquanto o indivíduo que infringe a lei penal arca com a conseqüência de ter seu direito de ir e vir restrito ao espaço de uma cela de um presídio por um período determinado de tempo.

    O que não dá para entender é como funciona a cabeça dos “doutores” que dizem que um aluno receber uma punição por ter causado um dano ao patrimônio público é “violação de cidadania”. Isso faz parte do jogo, quem dá a patinha ganha biscoito, quem mastiga chinelos ganha tapa no focinho – e se não aprender não entra mais em casa.

    Dizer que a punição de uma falta viola a cidadania só se justifica quando a punição aplicada é injusta, cruel, desproporcional ao ato que a gerou ou quando gerar ainda mais prejuízos. Mas até onde me consta a punição foi aplicada aos reais autores do dano, foi razoável, adequada à gravidade da infração e trouxe benefícios diáticos e patrimoniais.

    O que será que o Professor Antônio preferiria? Que os pichadores fossem alvo de processo crime por vandalismo, que fossem condenados a cumprir alguma pena na justiça comum e que ficassem marcados pelo resto da vida, enquanto o Estado gastaria tempo e recursos no andamento destes processos, mais a execução da sentença e ainda por cima arcasse com os custos de reparação do dano causado pela pichação? Assim estaria garantido o devido processo e a cidadania dos pichadores?

    Tem gente que não pára mesmo para pensar. Ou que só pensa no próprio bolso. (Sim, porque do jeito que foi resolvido nenhum advogado lucrou com o fato, mas se fosse “resolvido” como eu descrevi, vários advogados teriam lucro.)

    Será mesmo que o Professor Antonio defendeu a cidadania dos pichadores ou o modo de resolução de problemas que traz maior lucro aos profissionais de sua área?

  3. Li Says:

    Sou de um tempo em que NÃO EXISTIA escola ou qualquer outro lugar emporcalhado.

    E todos eram felizes.

    Havia castigo e castigo não matava ninguém.

    Nem os pais iam na escola impedir que os filhos ficassem de castigo,quando merecido.

    • romacof Says:

      Há pessoas confundindo palmada com espancamento. E há também quem confunde o espírito com a quantidade. Uma palmada dada com ódio é muito mais perigosa do que cinco palmadas bem aplicadas que doem mais em quem dá.

  4. Li Says:

    Pois é…..tem isso também.

    Quem ama educa !


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