Quero pedir perdão aos cavalos…!

Houve uma época em que eu tinha uma grande preocupação pelo futuro da humanidade. Os meus escritores preferidos, invariavelmente de ficção científica, então proscritos, agora cults, me deixavam angustiados quando pintavam o fim do gênero humano. Que grande perda para a evolução do universo. A autodestruição pela ignorância técnico-atômica era a que mais me entristecia: um potencial avanço usado por governantes burros e poderosos destruiria toda a glória futura do gênero Homo sapiens. A juventude não percebia que aqueles governantes representavam proporcionalmente (e ainda representam) a massa burra do gênero Homo praetensus sapiens. A massa que é a maioria terrivelmente esmagadora. Não importa a roupagem, os aparatos científicos elaborados por uma minoria e utilizados com pompa pela idiotice estatística e estatizante. Naquela época nós víamos apenas as possibilidades que o nosso pequeno grupo vislumbrava como um ideal para todos, mas que era apenas o nosso ideal: paz, altruísmo, direitos humanos, educação ao alcance de todos… como se os outros também almejassem essas frescuras. A turba queria apenas pão e futebol. Na época da ditadura mereciam apenas pau e pau. E eram felizes de qualquer forma. Quantas bolinha-de-gude jogadas lomba a baixo nas esquinas da Andradas com a Borges, para assistirmos a dança dos cavalos da polícia. Quantas esquinas dobradas às guinadas fugindo dos cavalos. Quanto alívio quando os arquivos do DOPS viraram cinzas. Como a juventude tem uma visão estreita do que é a humanidade. Nós queríamos lutar por pontos de vista que na época julgamos o oposto da tirania. Correndo risco de vida. A nossa própria vida tinha pouco significado quando comparada com nossos ideais humanitários. Se há 65 milhões de anos um asteróide não tivesse afundado Yucatan hoje o mundo seria regido pelo gênero Dino sapiens, e a humanidade, que só evoluiu dos pequenos ratos que conseguiram escapar por pura sorte, seria catalogada nos registros criacionistas como uma possibilidade que, graças ao bom Deus dos dinossauros, não chegou a ser viável. Talvez ainda não estejamos livres de sucumbir a qualquer pedra que caia em nossas cabeças… ou nos auto-destruirmos, agora não por meios explosivos, mas como resultado de um vírus experimental que alguma indústria farmacêutica queira soltar no ar para testar o impacto econômico posterior de uma droga salvadora. Pensando bem, quarenta anos depois, não estou mais preocupado com a espécie. Quero que ela se exploda antes que prejudique qualquer outra, que ande por aí, e seja mais merecedora. De público quero pedir perdão aos cavalos que fiz dançar. Eu pensava que sabia o que fazia. Quero pedir perdão também aos policiais que caiam às pencas. Estes mereciam. Mas também pensavam que estavam fazendo a coisa certa.

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One Comment em “Quero pedir perdão aos cavalos…!”

  1. Franci23 Says:

    Só pesa perdão aos cavalos porque esses não sabiam o que faziam, pois os policiais sabiam e muito bem o que faziam. Pior eles gostavam do que faziam.


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