A Chave Analógica (5ª postagem)

(Se você deseja saber como começa esta história clique aqui.) 

Update em 27.08.2010

Há dois dias encontrei uma senhora que ganhou nesta história o nome de Lidia Lutz. Estou com 60 anos. Ela tem quase a mesma idade que eu. O filho dela, aqui chamado Jonas, trabalhou comigo há uns dez anos. Hoje ele tem um pouco mais de 30 anos. Jonas me saudou efusivamente, perguntou como estava o meu coração, brincou com a brancura da minha barba, e se despediu pedindo que eu me cuidasse, pois ele queria que eu ainda tratasse dos netos dele. Não o contrariei. Quem sabe é assim que espicham a vida da gente? Eu e ele nos encontramos com os olhos de quem se conhece de uma forma amena e amigável. Lídia me cumprimentou formalmente. Com olhos de velha assustada. Os olhos dos velhos refletem para sempre alguns pedaços da vida.

10ª PARTE – SAIDA DE CENA E NOTÍCIAS DO FRONT

            Na semana seguinte a minha vida foi modificada radicalmente. A realidade crua das necessidades financeiras me obrigou a largar Porto Alegre. Mesmo sem fontes definidas de renda iniciei uma nova aventura aos trinta anos. Em um único dia me desliguei das clínicas com as quais ainda mantinha alguma relação, e, como um cigano, eu e minha família nos mudamos para Itapeva, em busca de um lugar onde pudesse exercer minha profissão de forma independente; livre dos monopólios que sufocavam o exercício da medicina na capital. Nós e toda mudança acomodados em um caminhão emprestado, sem casa para morar, sem um lugar para instalar um consultório, sem vínculo com qualquer órgão público, apenas com a cara e coragem. Era o dia primeiro de maio de 1980. Passados 29 anos é possível resumir as razões daquela atitude em um único rótulo: sem saída. Um emaranhado de questões desonestas de cunho político me pressionou de forma mesquinha naquela direção. Todos os fios deste novelo, por si só, cabem numa outra história, repleta de curiosidades envolvendo vários nomes que hoje a mídia apresenta como personagens importantes da administração e dos desvios públicos. Estes capítulos, embora  interessantes, serão aqui sumariamente omitidos, por serem irrelevantes no contexto do que me propus a contar. Portanto, abandonei Porto Alegre e fui procurar morada a beira mar, começando do zero, longe do grupo guiado por Gerson e suas histórias mágicas, e sem vínculos freqüentes ou possíveis  com Luana, Juliana, Julio e Talis. Naquele momento esta era uma das minhas intenções: cair fora daquele mundo enigmático e impalpável. Não podia imaginar, então, que um dia ainda teria contatos com alguns deles. Embora indiretos e irreais.

            Em uma semana atendi meu primeiro paciente. Aos poucos as cores das pessoas foram ficando desbotadas. Em seis meses tinha um consultório capaz de manter as necessidades de minha família. As dores de cabeça me abandonaram. Em um ano eu era um membro daquela nova comunidade, integrado em suas histórias sociais e políticas. Em dois anos estava envolvido no processo de emancipação da cidade, e participava de todos os eventos e reuniões das lideranças locais. Foi quando começaram a chegar as cartas de Gerson. 

            A primeira carta permaneceu fechada por um bom tempo num canto da mesa. Qual o interesse do velho? Dois anos haviam se passado. Um tempo suficiente para que o enredo provável, dos eventos envolvendo o grupo ao qual eu pertencera, tivesse se desdobrado de uma forma inimaginável. A minha decisão de me afastar em definitivo daquela viagem louca lutava com a curiosidade em saber como, afinal, haviam se saído os antigos companheiros. O envelope fechado exercia a função de um imã. Ele estava ali ao alcance de minha mão. Dentro uma história escrita por um indivíduo que eu conhecera muito bem e sabia o quanto ele era capaz de manipular a atenção de um curioso para atingir os seus objetivos obscuros. Mas que mal faria ler a carta? Qual efeito mágico o seu conteúdo poderia ter sobre a minha ferrenha intenção de me afastar das ações do grupo de Gerson? A curiosidade acabou vencendo… a mesma que matou o gato! 

            Abri a carta! Iniciava com todos os lugares comuns que se costumava usar quando as cartas ainda eram um meio de comunicação! Contou que Luana e Talis haviam casado! Um acontecimento que eu consideraria improvável dois anos antes. Resumia a situação dos demais com um simples “os outros estão todos bem”. Mostrava interesse e preocupação com minha atividade profissional e desejava que todos os meus sonhos estivessem se realizando. De passagem esperava que eu ainda os considerasse como amigos e companheiros de uma história inacabada, e finalizava colocando-se a disposição para contatos futuros “em nome da grande consideração” que tinha pela minha pessoa. Uma carta que transformada em conteúdo matemático poderia ser resumida a zero. Li a carta várias vezes tentando descobrir nas entrelinhas um objetivo oculto, pois conhecendo Gerson não conseguia imaginar aquele velho matreiro perdendo tempo e escrevendo de próprio punho frivolidades para um indivíduo que ele não via há 2 anos, e, que de certa maneira, havia abandonado o jogo, ou a luta, no meio do processo, com uma despedida extremamente objetiva: as minhas necessidades reais sobrepujavam, e muito, qualquer vontade em permanecer naquela procura mística e pouco produtiva. 

            Devo ter ponderado por uma semana a possibilidade ou a necessidade de uma resposta. Poderia ser considerado deselegante não responder. Enfim respondi. Talis e Luana casados? E Juliana e Julio, como estavam? E afinal! Como se saíra Talis na empreitada em Candeias? Como terminara a história que previa a captura, ou as ações envolvendo o magista? Pronto! Eu estava fisgado.

            Durante 6 ou mais meses mantive uma insólita correspondência com o Gerson. Houve longos comentários filosóficos sobre os invólucros energéticos que revestem o corpo humano como “camadas de uma cebola”. Sobre a interação das camadas externas de duas ou mais pessoas  quando interagem fisicamente ou simplesmente se aproximam. Sobre a vibração, perceptível nas costas e na nuca, quando o invólucro relacionado com os chakras entra em ressonância e permite o que ele chamava “manobra de saída”. Sobre o sistema de procurar, na hora de dormir, o “ponto de ressonância”, situado acima do campo visual. Sobre viagens fora do corpo, e sobre encontros com outros viajantes durante estas hipotéticas saídas. 

            O cepticismo sucumbiu à envolvente e detalhada narrativa de Gerson. Quando eu percebi não só sustentava uma freqüente troca de cartas como também procurava efetivar os processos que eram descritos. E entre uma loucura e outra chegavam as notícias aparentemente soltas: Talis falhara em Candeias. Não conseguira usar seu mandala. O terror embotara sua capacidade de concentração. O magista, ao se sentir ameaçado, causara uma grande destruição nas estruturas que englobavam o local de criação dos porcos e frigoríferos. Talis conseguira escapar com fraturas em uma das pernas. E o magista fugiu! Abandonou aquele local onde poderia ser facilmente encontrado e seu destino agora era incerto. Neste ponto o velho deixava transparecer o contratempo que isto acarretara aos planos há tanto tempo elaborados. Gerson enfatizava que, nestas situações, era importante ter uma visão mental perfeita do mandala, e ter a convicção de que o “visualizador” seria inatingível por qualquer ato do magista se mantivesse o equilíbrio e não se deixasse envolver pelo medo. Eu, enquanto lia aquela história como uma novela estranha ocorrida numa terra distante, percebia que a visão que eu próprio tinha do meu mandala permanecia nítida em minha memória, como um complexo ato reflexo. E ali, embora todos os elementos já estivessem a minha disposição para uma perfeita análise e conclusão, eu não percebi que continuava a ser um peão no jogo de Gerson. 

11ª PARTE – VIAGENS E ENCONTROS NOTURNOS

            Qual a diferença, ou a relação, entre a alucinação e a realidade? A realidade é a alucinação que você pode compartilhar com alguém. A alucinação pode ser a realidade que só você tem a capacidade de perceber. Neste caso fique bem quieto! Avalie bem se você não está num estado alterado de percepção. Quem sabe sob efeito de algum elemento externo, como uma substância química, ou você pode até estar sendo vítima de um hábil ilusionista. Mas não se esqueça de que a realidade, convencionada como tal pode também ser um logro coletivo. Não pense que os outros são normais só porque não vêem o que você está vendo. Eles podem ser cegos, ou inábeis, ou estarem fingindo para não serem rotulados de loucos. O normal não é aquele que não tem alucinações, mas aquele que consegue conviver com elas. Num determinado momento você pode encontrar outra pessoa que compartilha com você a mesma percepção considerada enganosa. Então a probabilidade de que sua ilusão não seja afinal tão irreal cresce; e cresce na mesma proporção a possibilidade de que tenhamos dois alucinados! Ora! Que dilema! Não é fácil definir a normalidade

            Alguns dizem que o melhor é o movimento de se sentar na cama, e depois, se levantar. Antes de saírem naturalmente pela janela ou pelo telhado. Naturalmente! Eu prefiro rolar para trás. Quando se sente a nuca formigar eu levanto as pernas e as jogo para cima, sobre a cabeça, como quem vira uma cambalhota ao contrário, e assim fico normalmente de pé num só movimento. Geralmente no cômodo contíguo, é claro, pois é costume dormir com a cabeça perpendicular a uma parede. Tudo muito lógico.

            As primeiras vezes são cambaleantes, como quem está aprendendo a andar. Principalmente por que no início não se tem consciência do que está acontecendo. Não é um ato premeditado. E estas surpresas geram situações confusas. 

            Lembro de cair da cama. Repentinamente estava sentado no chão com as costas apoiadas na cama. As pernas estendidas no espaço entre a cama e o guarda-roupa. Fiquei perplexo com o fato de estar naquela situação. Embora sonolento, tinha perfeita noção espacial do meu corpo e via os objetos a minha volta com extrema nitidez. Num ato reflexo procurei me mover para sair daquela posição ridícula. Levei a mão esquerda para cima da cama. Eu procurava apoio para um impulso que me permitisse sentar na beira da cama. Mas minha mão segurou uma perna suada e peluda de um indivíduo que estava deitado em meu lugar. A minha mão segurou a minha própria perna. Como um elástico que é repentinamente solto após ser esticado ao máximo eu, num breve instante, estava absolutamente desperto, e vi a mim mesmo sentado no chão segurando a minha perna direita. E, simultaneamente, eu estava sentado na cama, tentando entender aquele perceptível paradoxo.

            O tempo me transformou num viajante com certa prática. As viagens, ao contrário das auras de Thalis, não causavam dores de cabeça e a sensação era muito agradável. Conseguia induzir a ressonância necessária que se transmitia em direção à nuca e permitia a saída do corpo. Ansiava pela hora de conciliar o sono; deitar para dormir  se  transformara num momento esperado. A hora de viajar.

            A rotina do procedimento não evitava o ineditismo nas viagens. Em minhas viravoltas eu atravessava a parede e a partir da sala ao lado ganhava a rua geralmente pela janela. Na primeira vez protegi a cabeça com os braços esperando o estilhaçar da vidraça. Depois não me preocupei mais com estes pequenos detalhes da impenetrabilidade da matéria. 

            Uma constatação que para mim foi uma grande surpresa: o tráfego de viajantes noturnos é intenso. Impressionantemente intenso! Mas a impressão é a de que a maioria esmagadora destas criaturas não sabe que se encontra viajando. Eles vagam sem um rumo, desorientados, refletindo, possivelmente, o próprio sono. Porém há aqueles que nitidamente sabem o que estão fazendo. Alguns percebem você, mas, o evitam. Passam ao longe, fugidiamente. Poucos são amigáveis. A maioria faz uma avaliação não muito simpática de suas intenções e parte em busca de seus próprios objetivos. Há também os que são francamente hostis.

            Uma noite decidi pairar sobre Itapeva, aproveitando a vista admirável, distraidamente, absorto com os ângulos incríveis. Estava feliz com aquele conhecimento privilegiado. E, como surgida do nada, materializou-se ao meu lado uma menina aparentando 9 ou 10 anos. De cabelos longos e rosto suave. Usando um vestido esvoaçante. A imagem de um anjo. Fiquei surpreso com a aparição repentina e mais ainda com aquela  rara aproximação. Ela era linda e eu fiquei encantado com aquele prazer inesperado. Quis chegar mais perto e tentar um diálogo, mas, logo percebi que ela se afastava mantendo uma distância constante de mim. Disse, ou pensei: “Não tenha medo! Só quero conhecê-la!” E ela prontamente respondeu, ou pensou: “Sou Deca! Sei quem você é! e sei o que você quer!” Aquela resposta me desconcertou, mas tentei uma nova abordagem: “Não acredito que nos conheçamos! Podemos ser amigo?” E então algo surpreendente aconteceu: a linda menina sofreu uma brusca metamorfose enquanto se aproximava rapidamente de mim. Num momento era uma doce fada mirim e no segundo seguinte um homem gordo, usando uma toga imunda, com uma face enegrecida e maligna, coberta por uma barba rala e irregular. Aquele personagem me alcançou de forma instantânea e cravou dolorosamente o dedo indicador no meu peito, mostrando dentes tortos e amarelados. Enquanto falava senti seu hálito desagradável: “Vou repetir só mais esta vez! Sou Deca! Sei quem você é e sei o que você quer! Sei onde você vive e sei quem são os seus filhos! Caia fora daqui!” E naquele instante eu estava em minha cama, trêmulo e suado. Sabendo que não fora um sonho. Tentando me orientar frente aquele episódio incomum.

            Após o encontro com Deca passei a fazer viagens mais curtas e mais cuidadosas. Limitava-me a subir no telhado e sentar na cumeeira. Nestas ocasiões, seguidamente, nossa collie, Babuska, latia e olhava em minha direção como se percebesse minha presença sobre a casa. Um fato admirável que observava nestas oportunidades era a luminosidade da noite, da cadela, dos pássaros dormindo nas árvores ao lado da casa, dos pequenos insetos que voavam ou circulavam pela grama lá em baixo. Foi numa noite destas que um pensamento chegou até mim: “Permite que me aproxime?” E o impressionante foi que eu sabia que a pessoa que pedia permissão para se aproximar era o Julio. No segundo imediato ele estava sentado ao meu lado. “Vou resumir!” O pensamento de Julio penetrava em minha mente. “Juliana esteve recentemente em Itapeva. O Magista está aqui. Nós precisamos de você. Não se preocupe com Deca! É um Anunnaki tentando intimidá-lo. Ele não tem poder nenhum. Você saberá o momento certo em que deve agir. Nós estaremos preparados para cumprir a nossa parte. Depois, quando o trabalho estiver concluído,  nos encontraremos. Não há nada a recear, é só desempenhar o papel que lhe cabe. Estamos todos confiantes. O velho acredita em seu poder.” Por um instante Julio ficou ali, como se houvesse mais alguma coisa a dizer, e depois desapareceu. Eu passei o resto da noite sentado no oitão da casa, numa das extremidades da cumeeira. Quem poderia dormir com um “barulho” desses? 

12ª PARTE – O ENCONTRO COM O MAGISTA 

            A região de Itapeva costuma ser acometida por intensas tempestades elétricas. E naquela noite o céu veio abaixo. Chovia impetuosamente. Meus interesses se resumiam em ler um livro e esperar o sono. Mas o telefone tocou e o que me interessava foi totalmente desconsiderado. Na vida de um médico este fato costuma ser comum, mas aquela não seria uma noite comum.

            Um táxi veio me buscar para atender uma criança numa localidade próxima. Era uma casa pequena cuja porta principal ficava na lateral, sem uma soleira ou um pequeno telhado que a protegesse da chuva. Desta forma o motorista manobrou o carro até praticamente acoplar a porta do veículo com a da casa. A dona da casa abriu a porta e eu abri a do carro e praticamente saltei para o interior da casa sem escapar totalmente da chuva intensa.

            A senhora se chamava Lídia Lutz, tinha 3 filhos, e eu já a conhecia de um atendimento ou outro no pequeno posto de saúde da cidade. Ela era franzina e assustadiça, e o cabelo muito curto a deixava com traços masculinos. Usava um pijama surrado e uma coberta sobre os ombros para se proteger do frio. A casa, de madeira, tinha uma planta simples: a peça mais longa, à esquerda, onde eu me encontrava, cumpria as funções de sala e cozinha. Dois outros aposentos, supostamente os quartos, se comunicavam diretamente com o principal e estavam às escuras. Não vi uma porta que indicasse a presença de instalações sanitárias no interior da casa. Nestas pequenas moradias do interior é habitual colocar este recinto fora da estrutura principal, geralmente numa área de serviço nos fundos. 

            O perfil que eu já tinha traçado de Lídia, fruto dos contatos anteriores, era de uma pessoa depressiva, com traços paranóides, e uma espiritualidade confusa onde a fé católica se misturava a crendices e a uma imaginação fértil. Nunca revelava inteiramente seus medos e minha conclusão primária era de que deveria ter problemas de relacionamento com o marido. Este, um caminhoneiro, naquele dia estava ausente, o que aumentava e justificava a ansiedade da mãe pela saúde do filho. 

            “Quem está doente?” Perguntei. E Lídia, com os olhos muito abertos demorou um tempo intrigante para responder: “O Jonas! Ele está ali no quarto de trás”. O mobiliário era muito simples e surrado. Acomodei minha bolsa sobre uma pequena mesa, ainda com restos da última refeição, e segui com as perguntas normais: “O que aconteceu? Teve febre,? aparentou alguma dor? Está bom da barriga?” Novamente ela demorou para responder enquanto me olhava de uma forma indefinida. Respondeu enfim: “É melhor ver!” “O que será que tem esta mulher?” Pensei. “Parece assustada e desorientada.” Resolvi mudar o rumo da conversação: “Lidia! Está tudo bem contigo?” Ela balançou freneticamente a cabeça numa negativa enfática, enquanto abria ainda mais os olhos naquele rosto magro, quase como num pedido mudo de socorro.

            “A criança morreu!” Este foi o primeiro pensamento que me veio à mente. “Ela está desesperada e nega o fato. Quer uma confirmação? Quer um milagre?” O mal estar resultante do confronto com uma situação deste porte não cabe em qualquer descrição. Lídia foi até o quarto e acendeu a luz, mas, não passou da porta. Havia uma cama de casal. Possivelmente o menino dormia com ela quando o marido viajava. Ele estava deitado, e parecia dormir. Eu sentia meus ouvidos zunirem e a boca amarga. Não é possível encarar com naturalidade um momento destes. Quando uma criança está envolvida toda a frieza profissional morre junto com o paciente.

            Sentei na beira da cama e busquei o pulso do menino. Aparentava uns seis anos de idade. Havia pulso! O menino dormia profundamente. Respirava. Estava vivo! Senti um grande alívio e ao mesmo tempo fiquei confuso. Lídia permanecia na porta, sem entrar no quarto, inquieta e assustada. Eu rápida e sumariamente avaliei os sinais do pequeno paciente e nada encontrei. Jonas se apresentava apenas como um menino saudável que dormia normalmente. “Afinal! O que estava acontecendo ali?”

            Pedi que a mãe se aproximasse, mas ela recusou e voltou para a sala onde se sentou em uma cadeira e permaneceu estática, de costas para mim. Fui até ela e sentei a sua frente. “O que está havendo aqui? Lídia! Jonas não apresenta nenhum sinal de que esteja doente. Tente me explicar esta sua aflição. Vamos ver se posso ajudá-la! Me dê pistas!” Necessitava tranqüilizá-la. Se conquistasse a confiança de Lidia e ela se tornasse cooperante talvez aquela incômoda indefinição pudesse ser resolvida. 

            “É difícil!” Por fim ela disse. “O que é difícil?” Continuei socraticamente, tentando extrair respostas que elucidassem aquele chamado sem fundamento. “Descrever o que acontece!” Continuou Lídia. “Por que não tenta?” Articulei procurando ser o mais simpático possível. Ela me olhou no centro dos olhos e até esboçou um sorriso nos cantos da boca. “Ninguém acredita!” Completou Lídia. E se fechou num mutismo triste encarando uma fatia de pão sobre a mesa.

            Fui até o quarto e auscultei o menino. Observei os reflexos das pupilas. Constatei a ausência de rigidez de nuca. Não havia dor à descompressão abdominal súbita. Nem adenopatias palpáveis importantes. Enquanto eu fazia isto Jonas resmungava em seu sono profundo, mas, não demonstrava qualquer desconforto ao ser examinado. Olhei pela porta e vi Lídia de pé ao lado da mesa, olhando para a parede do fundo da peça maior, onde ficava a pia e um fogão. Ela levou as duas mãos à boca e disse numa voz abafada: “Ai, meu Deus! Vai começar…” 

            Intrigado sai do quarto e olhei na direção para onde Lídia fixava seus olhos arregalados. Naquele momento, que deve ter durado 5 segundos, não mais do que isto, o que eu vi gerou em minha mente uma bolsa atemporal. Primeiro fui atingido por uma perplexidade que julgava impossível, e que foi imediatamente transformada em comunhão com a história que Lídia deveria estar vivendo naquela noite, e possivelmente em muitas outras noites. Logo vivenciei um resumo instantâneo dos últimos anos com o grupo coordenado por Gerson. E por fim tive a sensação física, quando toda a pele de meu corpo se eletrificou ao entrar em contato com uma força incomum e estupenda, que não se enquadrava em qualquer conceito possível enquanto exteriorizava a própria existência.

            Naquele ponto a parede da casa ondulava como se fosse uma grande peça de tecido retorcida pelo vento. A louça e os outros utensílios chocavam-se sobre a pia e voava em cacos em todas as direções. O fogão tombou de lado obstruindo a porta dos fundos. Houve um zumbido agudo e depois um silêncio absoluto. A parede voltou a se solidificar como uma parede. O fogão permaneceu caído, e a cozinha era um caos de panelas e talheres misturados com pedaços de pratos. 

            Tive um sobressalto e acordei para a realidade quando Lídia ao meu lado soltou um profundo suspiro. Eu permaneci mudo tentando avaliar minha própria sanidade. Percebi que o gemido de Lídia não era de medo, mas de alívio. Em sua cabeça deveria estar correndo um pensamento de libertação. Não de estar livre do fenômeno, mas de estar livre da solidão. Enfim podia compartilhar. Enfim alguém poderia acreditar naquilo que ela não podia descrever. O chamado pela doença do filho fora um artifício desesperado. Mentira para atrair alguém que pudesse ver que não era louca. E eu era aquela pessoa. Eu fora preparado para aquele momento. Eu fora avisado. Mas eu não me sentia capaz de enfrentar aquela situação. Amaldiçoei Gerson e todos os que sabiam o que estava acontecendo naquela pequena casa no interior pobre de Itapeva. E ao mesmo tempo esperava que cada um daqueles miseráveis manipuladores cumprisse o seu papel. A constatação era óbvia: eu não tinha saída, e dependia da remota e distante ajuda deles.

            Continuava a cair toda a chuva que os céus poderiam acumular para aquele momento especial. Entreabri a porta da frente e percebi que o motorista cochilava no interior do táxi, alheio ao que acontecia na casa. Os filhos de Lídia que dormiam no primeiro quarto eram um pouco mais velhos que Jonas e dormiam um sono em outro mundo. O mundo normal.

            “Quem acreditaria?” Perguntou Lídia, cansada, mas mais conformada. “Meu marido acha que sou louca! As poucas pessoas para quem me abri certamente pensam a mesma coisa. De um tempo para cá decidi ficar quieta e acho que todos pensam que eu deixei de inventar estas coisas. É melhor assim!” 

            “Há quanto tempo?” Perguntei, estranhando o som da minha própria voz. “Há dois anos. Acho. Quase isto. Às vezes passa um tempo em que nada acontece. Depois volta tudo de novo. Meu marido acha que as coisas são quebradas por mim quando me dá uma crise! Uma cunhada minha morou aqui por dois meses para me cuidar, por causa das crianças, entende? Durante aquele tempo quase nada aconteceu e ela nunca viu nada. Você é a primeira pessoa que consegue entender o que eu digo. Hoje estava muito forte. Achei que ia enlouquecer.” 

            “Você acha que a coisa pode se repetir ainda esta noite?” 

            “Não sei!” Depois ficou pensativa por um longo período. Enfim completou: “Eu sei que o doutor não pode fazer nada quanto a isto! Mas eu precisava dividir com alguém. O padre veio benzer a casa há um ano. Ficou pior. Acho que, só por saber que alguém viu as mesmas coisas eu, vou me sentir mais forte. Eu já estava acreditando que tudo isto só acontecia na minha cabeça…”

            “E as crianças? Nunca viram nada?” 

            “Jonas sim! Mas ele é pequeno. Às vezes se assusta. Às vezes até acha engraçado!… mas, me diga doutor! O que eu posso fazer?”

            Então eu comecei uma preleção que surpreendeu Lidia, mas a cada momento que a desenvolvia surpreendia ainda mais a mim mesmo! Eu não tinha certeza das conseqüências daquilo que resolvera fazer, mas, decidi que não poderia continuar vivendo minha vida pragmática sem desenrolar de forma definitiva aquele entrave em que me envolvera quando conhecera Gerson e sua trupe. Meu medo era enorme. Minhas convicções dançavam em uma corda bamba. Era tudo ou nada. “Vamos sentar e esperar! Quem sabe este nosso amigo não resolve nos fazer mais uma visita ainda esta noite?” 

            Lídia pareceu a princípio aliviada, mas, à medida que eu adicionava uma observação ela foi se tornando tensa, talvez até duvidando da minha sanidade mental. E a noite mais anormal de minha vida teve início. 

            Eu, aparentemente, conversava com a dona da casa. Fazia comentários sobre a força que havíamos presenciado, mas sem revelar o conhecimento que tinha de sua natureza. Eu sabia ser o magista, mas isto eu não tinha a intenção de verbalizar. Pretendia passar a idéia de que subestimava a força do fenômeno e que, afinal, eu não passava de um fanfarrão ignorante. Lídia, gradativamente, ficava mais preocupada.

            “Eu tenho medo que esta coisa ganhe uma força que possa nos atingir…!”

            “Não, não se preocupe! Até agora esta coisa só provou que pode fazer barulho, e estragar coisas materiais. Só pretende nos assustar! Talvez até tenha medo de se revelar quando há mais pessoas…” O forro da casa estalou de ponta a ponta, como se algo grande e pesado rolasse no espaço exíguo entre a forração e as telhas simples de amianto. A poeira acumulada pelos anos escapou entre as tábuas em alguns lugares e caiu como uma chuva fina de pó. “Por exemplo: nunca teve coragem de aparecer quando seu marido está em casa…” As luzes piscaram e tive a nítida impressão de que pedras grandes foram atiradas sobre o telhado. “Ele se revela por que vê em você uma mulher fragilizada que tem apenas a companhia de três crianças…”

            Lídia soltou um grito e correu para o quarto em que estava Jonas. Fui atrás. Precisava controlar o meu medo. Necessitava continuar a desenvolver aquela tática, louca ou não, que me parecia a única naquela situação.

            A cama se deslocara no quarto e o colchão com o pequeno Jonas pairava quase meio metro acima do estrado. Lídia desesperada agarrava a beira do colchão e tentava inutilmente alcançar o filho que estava fora de seu alcance. “Só um covarde ataca uma criança indefesa!” Gritei. “Porque não vem brincar comigo? Sua coragem não é suficiente?” 

            O colchão despencou entre o estrado e o chão. Lídia caiu junto e se jogou sobre Jonas para protegê-lo com o corpo. O menino acordou aos prantos. Descargas elétricas bombardearam Itapeva. As luzes se apagaram. Fui envolvido por uma atmosfera sufocante e quente que me aterrorizou entorpecendo as pernas. Nesta hora busquei toda minha capacidade de concentração, no fundo de uma alma que não acreditava possuir, e projetei em minha mente, integralmente, com total nitidez, o mandala de Gerson. 

            Ouvi um uivo agudo e intenso. Senti que estava ajoelhado e depois caído de costas no assoalho de madeira. Um calor intenso queimava minhas orelhas. E fiquei totalmente surdo. Só o silêncio e a escuridão  me atingiram por um período que não pude mensurar. Sentia meu coração acelerado no peito e conseguia compreender que estava vivo. Aos poucos, como retornando de um sonho, ouvia ao longe o ribombar dos trovões. Depois o choro de uma criança. Depois as luzes voltaram. A parede que separava o quarto em que Jonas e Lídia se abraçavam sobre o colchão fora arrancada e as tábuas estavam espalhadas em todas as direções. Os dois filhos maiores de Lídia estavam de pé na porta do outro quarto e olhavam assombrados para aquela cena de explosão.

            Fiquei de pé, peguei minha bolsa e disse para Lídia: “Terminou. Ele foi para outro lugar!” Depois acrescentei: “Se alguém perguntar sobre o estrago diga que foi um raio!” Meus conceitos sobre o mundo real haviam sido modificados para o resto de minha vida.

            Abri a porta da frente e bati na janela do táxi onde o motorista ainda cochilava. 

13ª PARTE – EPÍLOGO

            Na véspera do Natal de 1986 eu estava sentado no alto da torre da Igreja da cidade, pensando no absurdo daquela noite tempestuosa na casa em que enfrentara o magista. Haviam se passado três anos. Percebi que Julio se aproximava. Logo ele estava sentado ao meu lado e conversou comigo naquela maneira peculiar de enfiar as palavras diretamente dentro de minha cabeça.

            “Tivemos êxito! Ele deu um pouco de trabalho na casa de Gerson. Queimou tudo que era elétrico e Gerson perdeu um olho. Mas conseguimos transformá-lo numa tranqüila bola azul e o mandamos para casa. Neste momento os três estão do lado de lá. Gerson acredita que as coisas ficarão desta forma agora por uns bons tempos. Os Anunnaki estão perdendo muito sua força. Talvez em mais trinta ou quarenta anos já tenhamos desenvolvido a tecnologia que nos permita usufruir das informações que estão guardadas naquilo que atualmente se considera o nada.”

            “Isto é uma loucura!” Comentei.

           “Claro que é!”

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3 Comentários em “A Chave Analógica (5ª postagem)”


  1. […] Resposta da: A Chave Analógica (5ª postagem) […]

  2. Alan Cichela Says:

    Então uma sincronicidade é muito boa nesse aspecto de compreensão? Pois senão existe a possibilidade de entender, ou e ao tntar entender escapamos da compreensão, e ao esquecer, ou alcançar o nada, ou sej lá como os budistas chamam, estamos finalmente entrando na comprensão do todo. Nada. É preciso estar livre para compreender o todo, e vazio, para que essas sincronias atravessem nosso eu, em contrapartdida estamos a todo momento sendo ensinados da forma contrária, a perceber e a entender. Por isso a tentativa de equalificar a sincronicidade, o que mais chama a atenção nesses fatos é a tentativa de transformar as coisas não em algo “descontrolado”, mas em algo que possa ser controlado, de preferência no momento que a gente deseja. É complicado porque quando passamos por uma experiência dessas somos tentados a ter esse poder no momento que desejamos, pois a sensação é muito boa, e nos conforta saber que temos o controle do entorno, seja fisico/tempo, ou apenas subjetivo/atemporal. Esse poder atrai, não sei se poder é a palavra correta.

    Consegui me fazer entender? Às vezes nem eu sei direito como chego nessas conclusões.

  3. Alan Cichela Says:

    Ser racional é ser preso a máteria, é isso? E a matéria se assume mais forte que nossos pensamentos irracionais, que são aqueles que não cultivamos, não imaginamos. Quando falo em poder, não é aquele poder de filmes, ou de video-game, mas a capacidade de acreditar em algo mais forte, mesmo fora da nossa compreensão, que na maioria das vezes agride e oprime o senso comum. (acabo de ser interompido, já percebeu que sempre que estamos em um fluxo de pensamento um cara que não tem nada aver com nada aparece e nos tira da nossa realidade e tenta nos atrair para a dele? Mas bem voltando). Uma chaveira! Very cool! Como fazer para encontrar essa dona? Ela atende em horário comercial?


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