A Chave Analógica – (3ª postagem)

(Se você deseja saber como começa esta história clique aqui.)

Update em 25.08.2010

Na época da postagem chegou a seguinte pergunta: “Mas afinal! em que dimensão esta narrativa ocorre? Elementos ocasionais fazem pensar que não se trata se uma ficção! E o nada que não é o nada? aonde entra nesta história?” (quando seria mais preciso dizer: quando se entra no nada para que a história tenha sentido?). Tudo parece um jogo de palavras mas são palavras que definem um jogo. O nada que passa a idéia de ausência está excluído neste contexto. O nada é muito maior, e está lá, a espera, como uma rede a espera dos peixes… de um quark a outro, como cômodos de uma casa infinita, todos interligados, partes de uma mesma coisa, um único e universal e aparente nada. Onde todas as respostas ecoam há um pouco menos de 13,5 bilhões de anos (pelo menos desta vez). Um nada onde a diferença entre o ver e o olhar é fundamental. Nem sempre aquele que olha vê. Pois para ver nem é preciso olhar…!

Também perguntaram sobre a existência das chaves! Sim! As chaves existem, mas elas não são tão importantes. Girá-las gera analogias em determinadas fechaduras. As fechaduras sim, estas são importantes. Às vezes achar um chaveiro pode ser interessante…! 

6ª PARTE – A MISSÃO DE JULIANA 

            Eu já havia tomado uma decisão: Candeias não faria mais parte de meus planos futuros. Uma cidade pequena, receptiva, oferecendo uma atraente oportunidade profissional, mas agora envolvida em uma história mal contada. Muitas coincidências enroladas no mistério das ações dos meus companheiros “de-coisas-loucas”. Somado a isto havia o fenômeno das cores em volta das pessoas, com desdobramentos desagradáveis fora do ambiente em que as pessoas do grupo estavam envolvidas. Talis se adaptou mais facilmente àquela novidade e por vários dias defendeu de forma obsessiva o conceito das auras. Mas eu não gostei da idéia de permanecer indefinido entre possuir a visão de um iniciado ou ser portador de um paroxismo epiléptico. As crises ocasionais de dores de cabeça eram intensas e nenhum argumento esotérico me convenceu a aceitar de bom grado aquele “poder” inconstante e involuntário. Consultei um neurologista e um oftalmologista (omitindo politicamente os detalhes que teriam me brindado com um encaminhamento a um psiquiatra), mas, aparentemente, nada preocupante foi encontrado. Na época existia um medicamento para cefaléia (Tonopan) que continha butalbital (um barbitúrico) na fórmula, e foi com este remendo que consegui suportar as dores. Passei um bom tempo sem me encontrar com os outros “guerreiros”. Talis me mantinha informado das notícias mais importantes. Eu, nesta época, procurei concentrar todos os meus esforços em minha profissão, e, a cada dia ficava mais evidente que sair de Porto Alegre era a melhor opção. Já havia visitado por duas vezes a pequena cidade de Itapeva, próxima ao litoral, sem as mesmas facilidades que encontrara em Candeias, mas onde o meu trabalho seria muito bem recebido.

            Um dia encontrei Talis e Julio na Sarmento Leite, na esquina da Faculdade de Medicina. O Talis estava pálido. O Julio falante e excitado. Eu nunca o vira assim!

            “Amanhã tem reunião na casa do Gerson. A Juliana tem umas boas histórias para contar. É para todo mundo ir.” Deu um tapa nas costas no Talis que o desequilibrou. “O Talis, aqui, não vê a hora se saber os detalhes. Não é Talis?” Talis abanou a cabeça com os olhos parados e com a boca muda. Estava borrado de medo.

            Pensei: “Não vou! Está na hora de cortar os vínculos com a turma. Logo vou embora daqui. Vamos botar os pés no chão e esquecer esta história de querer achar a porta para um mundo mágico!”. Mas no dia seguinte lá estava eu. Com cara de homem sério, mas tão curioso como todos os outros.

            Gerson saudou a todos de uma forma mais pomposa do que o habitual. Pediu desculpas por ter se ausentado além do previsto, mas acrescentou que acreditava na compreensão dos amigos, afinal, disse: “É preciso trabalhar de vez em quando, pois um homem não pode ficar todo o tempo brincando de guru!” Enquanto isto Juliana mostrava-se visivelmente ansiosa em iniciar o seu relato. Liana e Julio estavam sentados no chão ao lado da poltrona em que Talis havia se acomodado. Um Gerson azulado ocupou o centro do sofá maior tendo eu e Juliana ao seu lado. Enfim o velho voltou sua atenção para Juliana.

            “A informação que eu tinha era de que algo estranho estava acontecendo na criação de porcos de um morador de Candeias.” (Soube que o proprietário era o médico que eu iria substituir no hospital da cidade. A tal criação de porcos não era um estrutura simples. Contava com um frigorífero imponente. Ele exportava carne para vários países, e esta era sua atividade principal. Ele estava ansioso para que alguém o substituísse na atividade médica.). “No meio da noite os animais enlouqueciam. Vários, misteriosamente, conseguiam amanhecer fora dos galpões. E alguns morriam, segundo o diagnóstico dos veterinários, de enfarto, tamanho o estresse sofrido nestas ocasiões”.

            “Todas as possibilidades que poderiam ser as causadoras do transtorno foram analisadas. Predadores, doenças, envenenamentos, ação de vândalos. As coisas aconteciam invariavelmente à noite, mesmo com todas as luzes acesas e na presença de vários técnicos e do proprietário.” O que chamou a atenção de Gerson foi a história contada por um dos funcionários que afirmou ter visto um dos animais ser lançado em um vôo impossível sem que nenhuma ação justificasse o fato.”

            “Então!” – interrompeu Julio – “a super Juliana chegou com seus poderes para solucionar o caso”!

            Juliana, sem dúvida se mostrava bem mais segura do que nós a conhecíamos anteriormente, e retrucou: “Ora Julio! Não se faça de bobo! Você sabe que não posso resolver casos, como você está insinuando! O fato, isto é preciso ficar bem claro, é que eu não sei como funciona, apenas procurei seguir as instruções que o Gerson me deu… fico com muito medo, é claro! mas acredito que nada de mal vai me acontecer se eu fizer as coisas certas. Só faço a minha parte, e acredito, preparo o terreno para que outro termine o trabalho. Se vocês quiserem saber o resto eu continuo…”

            “Vai em frente, guria! Não esquenta com o que digo! Talvez eu esteja é com um pouco de inveja por não ter participado desta sua aventura!” Realmente, era um Julio bem mais extrovertido do que eu conhecia.

            “Bem…” – seguiu Juliana – “… havia alguma coisa lá! Eu não vi esta coisa. Mas vi porcos rodopiarem no ar. E senti aquela eletricidade que deixa todos os teus cabelos de pé. E quando consegui ficar calma, e me convenci de que aquela coisa não podia me atingir, mentalizei meu mandala até poder vê-lo desenhado na minha frente. Então tudo ficou muito quieto, os gritos dos porcos e o som das máquinas se transformaram em um silêncio pesado que aos poucos foi sendo substituído por um zumbido quase ensurdecedor que terminou repentinamente num estalo elétrico. E os porcos foram se acomodar roncando como os porcos fazem para achar um lugar para dormir, e tudo ficou em absoluto silêncio. Mas minha nuca me dizia que a coisa continuava lá, me observando, me analisando, aparentemente sem poder me atingir. Os acontecimentos estranhos, depois me disseram, ficaram bem mais raros, mas a coisa continua lá! E foi isto que aconteceu! “

            “Alguma pergunta?” questionou Gerson.

            “Aonde eu entro nisso?” Cuspiu Talis! E sua rapidez e ansiedade foram tão evidentes que todos rimos, até o próprio Talis, mas Gerson não riu e, como sempre iniciou uma longa preleção, que parecia não ter ligação alguma com aquilo que acabáramos de ouvir.

(continua)

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