O Debate das Pulgas (2ª parte)

O lento retorno…

Um dos três, que eram como gêmeos (que depois me disseram se chamar Joaquim!), olhou para aquele meu olho esquerdo, aberto, que observava atento, registrando o desenrolar dos fatos. (O olho acompanhante dos movimentos e atos, sem entrar no mérito se verdades ou  interpretações antropomórficas daquela esfera aconceitual) Então, este, a que me referi, sorriu e disse: “Por que não fecha este olho e dorme?” Respondi (ou pensei e de alguma forma me fiz compreender porque minhas cordas vocais estavam impedidas pelo tubo): “Por que quero ver o processo! afinal, é uma oportunidade única! Estou presente e consciente e ao mesmo tempo sabedor de que morri. E isto se opõe ao meu conceito de continuidade.” A resposta veio pronta: “Então reconceitue ou se convença de que não chegou a sua hora! Vamos! Feche o olho! Facilite o meu trabalho”.

Devo ter piscado! O box era o 23! Um entubado sente muita sede e não há um método estabelecido para comunicar este desespero básico! A anestesia é uma das maiores invenções (depois do velcro e do papel higiênico)! Quando ela acaba o mundo é um dos piores lugares para se viver. Há uma certa dificuldade inicial para contar os tubos,  de diâmetros variados,  que de alguma forma foram introduzidos em seu corpo.  Você se surpreende com a imaginação dos técnicos nesta área! Tente contar os buracos novos. Os abertos e os suturados. Tente dormir! De 30 em 30 segundos você será acordado por alguém lhe injetando algo ou conferindo um sinal vital. Não vão entender sua necessidade aflita por duas gotas de água pingadas em sua boca ao lado do tubo! Esqueça! Feche os olhos como Joaquim pediu. Facilite o trabalho deles. Sempre chega o momento mágico. Ou você finalmente é desligado, ou sobrevive. O tubo é tirado e trocado por um sugador voraz que lhe introduzem pela traquéia até terem certeza que sua alma foi sugada. Como prêmio lhe pingam quatro gotas de água em sua língua. As amarras nas pernas serão mantidas. O destorturar deve ser gradativo para que você não pense que as coisas podem ser transformadas em algo fácil como num passe de mágica. O tempo é um remédio espetacular. Correção: o tempo ganha do velcro e do papel higiênico. Só perde para a anestesia.

De olhos fechados aproveite para “reconceituar”. Fique atento para o diálogo que as pulgas travam, acaloradas, atrás de suas orelhas.

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One Comment em “O Debate das Pulgas (2ª parte)”

  1. Alan Cichela Says:

    Adorei a imagem do Cágado!
    Ficou muito boa e completa a imagem do blog.
    😉


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