A Chave Analógica (1ª postagem)

Update em 25.08.2010

A realidade é aparente! O mundo é o conjunto de nossas virtualidades individuais. Nem tudo é o que parece ser. A verdade está tanto na brisa como na folha que ela movimenta. O insólito está na rede infinita que se esconde no interior das partículas que a física espreme em busca de uma explicação para o que definimos como sólido seja realmente sólido!

Era necessária uma história que tornasse mais palpável esta conversa maluca. Uma história apresentando personagens, episódios, e um enredo. Uma história com começo, meio e fim! Uma história que poderia ser real, romanceada, ou totalmente fictícia! Então eu resolvi começar uma história! 

PRIMEIRA PARTE – TUDO TEM UM REGISTRO

            Houve um tempo em que conheci um homem chamado Gerson. Ele era casado com uma angolana chamada Violeta. Se a vida ainda o conservasse já teria passado dos cem. Alguns que o conheceram afirmam que um dia Gerson sumiu, desapareceu, parou de circular nos meios em que normalmente era visto. Outros me garantiram que um dia ele simplesmente morreu!

            Gerson reunia a sua volta um grupo de jovens. Aos nossos olhos ele era um velho entre os sessenta ou setenta anos, mas para nós, os jovens, outros trinta anos já se passaram. Gerson era um faz tudo muito comum no fim da década de setenta: pedreiro, eletricista, encanador, pintor, jardineiro e técnico em concertos de aparelhos domésticos. A idade o havia posto à margem do trabalho regular. Mas Gerson, bom no que fazia, transformara o tempo livre numa múltipla fonte de ganho informal.

            O termo que melhor definiria as reuniões na casa de Gerson seria: insólitas. Ele não convidava ninguém. Os participantes apareciam às quintas feiras na hora em que todos os gatos ficam pardos. Era um grupo pequeno, formado por seis jovens de idade entre os 18 e 30 anos, todos de nível universitário ou com suas profissões já definidas. Minha memória, três décadas depois, consegue lembrar que eu estava lá, aos 28 anos, naquela época um médico recém formado, Luana, uma analista de sistemas um pouco mais jovem, Talis, um estudante de informática de 20 anos, uma estudante de 18 anos, Juliana, sempre assustada e quieta aparentando ver ou querer ver mais coisas do que realmente acontecia ali, um advogado de 30 anos, Alexandre, o Narciso do grupo, bem falante e bem vestido, com o gosto para ser o centro de todas as reuniões, e um sexto elemento, Julio, um mulato da minha idade, que cursava a faculdade de farmácia na federal. Julio pouco aparecia e quando estava presente não proferia palavra, embora mantivesse uma atenção intensa no desenrolar das reuniões e às vezes deixava transparecer uma cúmplice sintonia com o dono da casa. Os nomes de algumas pessoas foram modificados propositadamente para evitar relacioná-las com as profundas repercussões que alguns fatos tiveram em suas vidas.

            Hoje, na confusa névoa que o tempo projeta sobre as intenções individuais de tanto tempo atrás, seria impossível determinar como aquele grupo de formou! Como foi seu início? Porque aquelas pessoas com interesses tão variados se sentiram atraídas para uma conversa que durava de três a quatro horas na casa de um homem que não conhecíamos, e que não participava de nenhum grupo acadêmico a que pertencíamos.

            Mas uma coisa todos nós tínhamos em comum! Naquele tempo, ou em conseqüência da idade que tínhamos naquele tempo, todos comungávamos da angústia pelo indefinido. Pelo irreal. Pelas imaginárias realidades paralelas que quase nos tocavam, mas que, obstinadamente, não se revelavam. Pela mágica dos planos esotéricos. Pela alegada energia proveniente dos chakras. Pelas técnicas de meditação e pela improvável possibilidade de uma repentina iluminação espiritual como um cristal que se quebra misteriosamente. Pela dimensão infinita que se esconderia atrás da chama de uma vela num exíguo ambiente de reflexão. Pelo mundo invisível que se insinuaria aqui e ali aos sussurros. E pela esperança de que alguém nos fornecesse pistas, um truque, um caminho. Um guru que nos abrisse a porta, Alguém que dissesse:

            “Todas as coisas estão escritas… é só preciso ir até lá e lê-las! A explicação de um fato. A orientação para que um plano seja correto. A vida de um ser, suas possibilidades e as coisas que jamais poderá realizar…! Tudo tem um registro!”

SEGUNDA PARTE – A HERANÇA DOS NEFILIM

            Ocasionalmente Gerson nos contava algo que ainda não havia acontecido. Depois, de forma desconcertante, o tempo se encarregava de demonstrar que, na verdade, ele estava nos provocando com pequenas previsões. Quando isto acontecia eram inevitáveis que as discussões se tornassem acaloradas, e, para alguns, inconformadas.

            “Aonde se encontra esta falada e misteriosa escrita?”

            “Que história mágica é esta que parece só ter a finalidade de nos manter presos à espera de uma revelação que nunca vai acontecer?”

            “Qual é o seu prazer em nos manter indefinidamente na ignorância?”

            Os mais moderados tentávamos apaziguar: “Talvez você queira nos fazer perceber que há uma brecha para atingir este conhecimento, mas o tempo passa… e a paciência das pessoas tem limites… nós nos sentimos muito limitados para atingir este grau de percepção com os elementos que você tem oferecido!”

            “Há respostas que acreditamos já possam nos ser dadas… algo para meditar, ou esperar. Um ponto lógico onde nos apoiar!”

            Gerson nunca demonstrava oscilações em seu inalterável humor. Ele falava baixo, com longas pausas, e não aparentava muito interesse se as pessoas estavam realmente ouvindo ou compreendendo o que ele dizia. Portanto quando Gerson falava o silêncio na sala era total.

            “Não há pontos lógicos em que se apoiar! Pois nada disto segue princípios cartesianos! Se assim fosse vocês poderiam aprender tudo isto nos livros de escola! Mas a única coisa que a escola faz é prepará-los para o mundo dos fenômenos mensuráveis! E não há como medir, ou avaliar, ou entender de forma lógica a fonte do conhecimento que vocês desejam!”

            “Porra!”- vociferou Alexandre, de pé e gesticulando – “Isto é só um joguinho de palavras, velho… palavras vazias” – ele era o único que se referia a Gerson como velho – “Nos dê algo palpável Algo que mexa com nossas cabeças! Algo que nos mostre de forma definitiva que tudo isto não passa de balela, um bate-papo pseudo filosófico para as menininhas passarem o tempo.”

            O Gerson suspirava. “Vou continuar!” Gerson sempre suspirava quando era interrompido por Alexandre.

            “Há um lugar onde estão todas as coisas que competem ao conhecimento humano. Onde está escrita a nossa herança! São os registros acádios! São… como vocês atualmente costumam dizer, uma inimaginável extensão virtual de informações! Os Nefilim, um povo muito antigo, e que não pertencia ao nosso planeta, transmitiu este… banco de dados – vamos chamá-lo assim – à civilização humana mais antiga, os sumérios, há cerca de sete mil anos! Os acádios, que vieram depois, com o auxilio dos Nefilim, criaram chaves analógicas para acessarem estes registros!”

            “Meu Velho! lendas, história antiga, alienígenas, chaves analógicas, computadores mesopotâmicos… apenas nos dê uma prova de que não somos apenas um bando de idiotas!”

            E então Gerson disse: “Vou dar…! Só para você! Da mesma forma que você não acredita hoje que um computador um dia poderá caber em sua mão, e que se o conectássemos a um simples telefone poderíamos ter acesso instantâneo a todo conhecimento do planeta, e que esta informação só terá sentido, bem mais tarde,  para os seus colegas, mas não mais para você, eu vou lhe dar uma “chave analógica” que lhe permitirá ter acesso aos registros acádios, se você a usar de forma correta.”

            Houve um significativo silêncio. Todos pensavam: então o método para obter o prêmio é a afronta? Por que só o Alexandre ganhara a chave?

            Gerson retirou um círculo de papel do bolso com alguns desenhos que não pudemos identificar e entregou a Alexandre. “Todas as noite, durante três a cinco minutos, visualize este desenho. Esta é a chave! Ela pode lhe dar um grande poder que não sei se você saberá usar! Se você se deixar seduzir pela força desta chave aliada à sua personalidade, que lhe é bem peculiar, o poder poderá consumir você… mas esta vai ser a sua decisão. A chave agora é sua!”

            Alexandre, sem abandonar a postura agressiva, ficou indeciso por um breve momento, depois guardou o desenho no bolso, esboçou um sorriso de triunfo e ao mesmo tempo grunhiu um: “Valeu! velho!”

            E Gerson, demonstrando uma profunda tristeza completou: “… mas não se esqueça: tudo tem uma registro!”!

TERCEIRA PARTE – KUNDALINI

            Na reunião seguinte Alexandre não compareceu. Julio estava. As conversas colaterais sobre as quais Gerson aparentava não tomar conhecimento versavam sobre o evidente favorecimento a Alexandre, que, no grupo, era o elemento destoante. Porque Gerson lhe dera aquele “presente” depois de todas as grosserias proferidas? Surpreendentemente foi Julia quem iniciou o questionamento.

            “Gerson, eu quero… acho que todos nós queremos fazer uma pergunta: temos sido, acho, seus amigos, e você parece que corresponde a esta amizade! Então porque você deu ao Alexandre aquilo que… nós nem sabíamos que existia, mas que em essência todos nós queríamos?”

            Gerson começou sua lenta e monocórdia preleção, entremeada de pigarros e tossidas: “Alguns pontos precisam ser esclarecidos para que no futuro não haja mal entendidos! Eu não sou amigo de vocês! E, se vocês pensarem bem, nenhum de vocês é meu amigo! Nós nos reunimos porque queremos tirar algo uns dos outros! Espero que sejam coisas boas e que não façam falta aos outros, pois nesse caso nós estaríamos roubando uns dos outros. E mais: todos nós estamos aqui por que queremos estar aqui. Ninguém está aqui arrastado por algum meio escuso. Todos nós temos um propósito e por este motivo circunstancial nos reunimos. Vocês têm os objetivos particulares de vocês. E, o grupo que hoje está reunido aqui, composto por pessoas tão diferentes, tem uma meta muito semelhante, embora elas venham a ser usadas de formas muito diferentes!”

            Gerson fez uma longa pausa e tomou um copo de água que Julio fez surgir à sua frente como num ato ensaiado. “Todos vocês!”– continuou Gerson – “querem crescer! Quando digo crescer quero dizer evoluir, construir, fazendo o bem, sentir que uma das camadas de vocês ficou mais feliz! E para que este objetivo seja alcançado é necessário esperar. Não é possível crescer instantaneamente. No momento em que vocês menos esperam a paciência lhes dará, como prêmio, aquilo que vocês tanto queriam.” – E depois de outra pausa continuou, pois todos esperavam uma posição sobre a “chave analógica” dada a Alexandre.

            “O objetivo do Alexandre não é crescer, é conquistar! Ele não tem em sua mente o propósito de ser um indivíduo melhor! Ele já se considera o maior e o melhor ser que existe! Ele só almeja ter, possuir mais, e não interessa a que custo! E ele tem pressa, e a pressa, quando se mexe com o lado insólito das coisas, é um elemento muito explosivo.”

            “Eu não acredito que a chave que eu lhe dei seja realmente útil para o bem. Ele não tem a perseverança para ficar olhando bobamente um pedaço de papel a espera que algo milagroso aconteça. Talvez ele nem volte por um bom tempo… e isto vai ser bom! pois por enquanto vamos ficar livres de sua presença espaçosa… e, se ele voltar… bem, será a última, para nos abrir uma porta, e assim cumprir a sua finalidade.”

Luana se apressou em perguntar: “Espere, espere, e aquela história de pequenos computadores e telefones…” Gerson sorriu e interrompeu a conversa: “Ô, menina! Não seja apressada, você sabe… o que está na escrita está na história!”

            Um dia a conversa girava aleatoriamente sobre meditações, mantras, viagens astrais, e manobras vibracionais. Eu, um aficionado pelas insólitas fronteiras da ciência estava mais interessado na física das partículas subatômicas que segundo Gerson deveria ser em breve descoberta.  Ele deixara escapar que no aparente nada no interior destas partículas havia uma rede infinita que determinava as locações conceituais do espaço e do tempo. Quando as teorizações já viajavam por projetos de um portal quântico a porta se abriu e Alexandre entrou, e ocupou a sala com seu estilo, efusivo, radiante, e absorvente.

            O resultante e incômodo silêncio foi fugaz, e, politicamente, todos o convidaram para vir para a roda e participar das conversas malucas como se aquele fosse o mesmo Alexandre que todos conheciam.

            Alexandre se sentou a sua moda, cruzando suas longas pernas, ocupando mais espaço do que necessitava, e jogando os braços sobre as costas do sofá. Os assuntos gradativamente se perderam ou morreram e todos sentiram que um sólido mal-estar ocupara a sala.

            As reações foram muito rápidas e só muito depois conseguiríamos analisá-las uma a uma. Alexandre estava sorridente, corado, desafiador. Julio imediatamente ficou de pé. Luana olhou com nojo para Alexandre. Gerson, quieto, com o queixo mais erguido do que de costume, passou a encarar mudo e sério as reações dos componentes do grupo. Juliana, sentada em sua cadeira preferida, cruzava as pernas de uma forma aflita, com as mãos contraídas entre as pernas e olhava para nós com os olhos muito abertos. Sua face se contorcia num misto de vergonha e prazer e repentinamente começou a soltar gemidos e soluços de puro orgasmo.

            Sabíamos que havia algo de muito incomum acontecendo ali, mas as implicações eram tão extraordinárias que Talis e eu ficamos imobilizados. No instante seguinte, com rapidez, e com uma força que nos pareceu impossível, vimos Julio e Gerson tomarem o Alexandre pelos braços e jogá-lo pela porta afora. Juliana já não estava na sala. Luana a levara para algum outro lugar da casa. Eu e Talis permanecemos sentados, atônitos, não acreditando em nossas próprias conjecturas.

            Julio e Gerson voltaram a se sentar. Luana voltou e disse que a esposa de Gerson estava cuidando de Juliana. Todos nós queríamos uma explicação. Mas aguardamos mudos até que o Gerson se dispusesse a falar.

            “Kundalini” – disse a guisa de prólogo – “alguém o ajudou a utilizar a chave para abrir a porta da libido animal e usá-la intelectualmente”.

            Perguntei: ”Mas Gerson! Isto… este mau uso da chave que você deu a ele não poderia ter sido previsto? Afinal! Não está tudo nos registros como você diz?”

            “Está!” – respondeu Gerson – “… e já era previsto! E, mesmo lhes parecendo inexplicável agora, era tudo necessário! Os elementos que serão usados para abrir uma porta absolutamente necessária necessitavam ser acordados! Quem o ajudou a descobrir o fogo que havia dentro dele apenas queria me desafiar, mas nos ajudou”.

            Sai de meu torpor sentindo a necessidade de ser a voz do grupo e iniciei um longo discurso de protesto: ”Como? Você diz que nos ajudou? Juliana passou por um constrangimento que dificilmente não se transformará num trauma para o resto de sua vida. Há um monstro a solta por aí, e só Deus pode saber o que ele já fez ou o que poderá vir a fazer. Ele nos ajudou em quê? Vamos crescer espiritualmente assistindo o êxtase sexual de uma menina induzido por um megalomaníaco? Somos o que aqui? Estamos sendo ajudados a fazer o quê? Somos peças de que jogo? Ou pior… estamos ajudando você a fazer o quê? Por que é evidente que algo irreal está acontecendo! E nós… nós somos os peões cegos! Os idiotas, que só permanecemos vindo a sua casa por este… por este imã pelo inusitado! Abra o jogo Sr Gerson! Queremos respostas!”

            Neste momento Juliana voltou para a sala e sentou em sua cadeira como se nada houvesse acontecido. Todos nós a olhávamos a espera de uma reação, de uma resposta, mas ela, ligeiramente constrangida por tantos olhares apenas sorriu e disse: “Que foi pessoal! Perdi alguma coisa?”

            E Gerson, mais para mim, mas de forma que Talis e Julio também ouvissem, completou: “O mesmo fogo da serpente que pode consumir até às cinzas, pode, quando manipulado de forma adequada, ser apagado e com ele a memória do que aconteceu…e, nas circunstâncias, não acho conveniente responder ao seu longo e justo questionamento no dia de hoje! Você não acha?”

            E, inesperadamente Luana completou: “Dona Violeta fez bolinhos e café! Alguém vai querer?”

(continua)

 

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