Você é um ser humano?

 

O que é um ser humano?

 

 

O que é um ser humano? Quais são os critérios que definem o grau de humanidade de um indivíduo? Para uma mãe ou para um pai que há 30 anos lutam para manter vivo um filho com elevado grau de retardo neurológico, e todas as deficiências imagináveis nestas situações, ele é um ser humano? Aquela criatura semi-vegetativa, já adulta, totalmente dependente no que se refere à alimentação e à higiene, que se relaciona aos grunhidos e socos apavorados com os que os cercam carinhosamente, é um ser humano? Voltamos ao início: pergunte ao pai e à mãe desta criatura com a qual eles convivem há 30 anos, e lhes peçam para que relacionem todas as pequenas ocorrências clínicas, e todas as doenças graves daquela criança que crescia e ocupava suas vidas como um filho a ser amado e protegido. Pergunte a eles sobre a esperança de que um dia aquela doença poderia de um modo mágico ou milagroso ser eliminada. Perguntem a estes pais se aquela criatura, em qualquer momento, em qualquer situação, em qualquer idade, deixou de ser tratada como um filho. Pergunte pelos momentos de desespero impotente frente a realidade crua de que  aquela criança cresceria se transformando num símbolo eterno de uma vida indigna. Pergunte a estes pais quantas vezes não pediram que a bondade divina desse a este filho uma morte digna.

 

No fim de um dia chuvoso minha vontade era ir para casa e esquecer as cruzes alheias. Chegou o Negro Edílio, de capa preta,  bicicleta, e um pedido encabulado: “Preciso que o doutor dê uma olhada num afilhado meu. Mora lá na saibreira. Ele já é grande mas é especial. É muito difícil tira-lo de casa ainda mais numa barreira destas. Acho que a coisa não é boa…mas a família pediu! E eu vim ver se o amigo me faz este favor!”

 

O Edílio guardou a bicicleta ao lado do consultório e fez as vezes de guia pois eu não conseguiria descobrir a casa do paciente sem sua ajuda. No caminho me confidenciou: “Eles estiveram ontem no hospital (Hospital Nossa Senhora dos Navegantes em Torres). A ambulância levou mas trouxeram de volta. Disseram que era uma cólica e que dessem bastante chá”. Questionei: “fizeram algum exame, um hemograma, um raio X?”. E Edílio respondeu: “Acho que não… ele foi atendido na ambulância, a doutora só olhou e passou uma receita!”

 

A casa, de madeira, era pobre mas tinha o indispensável para manter uma família de interior que vive basicamente da agricultura. O paciente sobre uma cama simples mostrava sinais evidentes de dor intensa. Os indivíduos que sofrem graus elevados de retardo mental, em situações de nítido sofrimento, se mostram muito agressivos, e a ajuda da mãe e de uma irmã foram fundamentais para que o exame fosse possível.

 

O paciente estava pálido, com as mucosas nitidamente descoradas, e defendia-se de forma intensa nas tentativas de uma palpação mais profunda do abdômen. Não apresentava alterações cardiovasculares ou de pressão. Questionei sobre perdas de sangue ou a cor da fezes. A irmã prontamente me informou que as fezes do irmão estavam pretas e que há alguns dias havia sido feito um exame em Torres que constatara uma úlcera gástrica hemorrágica.

 

Expliquei aos familiares de que qualquer medida terapêutica tomada naquele lugar, com os recursos disponíveis, seriam inócuos. O paciente apresentava todos os sinais de uma hemorragia interna, possivelmente uma úlcera perfurada, e a conduta mais apropriada seria uma hospitalização, exames complementares, e medicações determinantes sobre o quadro estabelecido.

 

Houve a angústia natural destas situações. Mas a conduta foi acatada. Um filho necessitava ser hospitalizado, pois corria risco de vida. Foi providenciado um veículo na prefeitura de Três Cachoeiras e o paciente, os exames anteriores que comprovavam a úlcera gástrica, e um longo laudo descritivo de minha visita foram levados ao hospital de Torres.

 

Já era noite quando eu e o Edílio voltamos para casa. No caminho eu segredei ao meu guia. Não deveria ter dito nada, mas disse: “Sabe Edílio! Nestas situações me vem um grande dúvida! O que eu fiz foi certo? Eu deveria ter encaminhado este paciente para o hospital? Quem vai atende-lo  lá? O plantonista vai ver naquela criatura um ser humano doente mas que não teve as mesmas condições que nós tivemos para evoluir até aqui? Vai ver um filho? Vai olhar para aquela mãe? Ou vai ver uma criatura inútil que se morresse só faria um grande favor para todos?” O Edílio quieto só me escutava. “Será que se eu tivesse prescrito uma terapêutica paliativa qualquer, mas que lhe amenizasse a dor até que a morte viesse, não lhe teria feito um favor maior? A morte seria digna, em casa. Seria tratado como um ser humano, com carinho, entre seus familiares.!” “E mesmo!” concordava o Edílio. Então eu expressei minha tristeza definitiva: “A impressão que fica é de que encaminhá-lo a Torres foi o mesmo que lhe dar um tiro!” “É mesmo!” repetiu Edilio.

 

A ambulância levou o paciente a Torres e lhe devolveu para casa duas horas depois com a aplicação de uma ampola de Buscopan. Durante a madrugada o quadro se agravou e o paciente foi novamente levado para o hospital mas faleceu antes de ser atendido.

Alguém havia puxado o gatilho.

 

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5 Comentários em “Você é um ser humano?”

  1. Li Says:

    Sinto vontade de chorar,quando leio,escuto,vejo coisas como essa.

    E a vontade de chorar se transforma numa raiva
    silenciosa,mas que se fortalece na certeza de NEM TODOS OS HOMENS SÃO MONSTROS.

    Identifico OS MONSTROS pelo olhar.OS MONSTROS possuem um olhar sem brilho,e arriscaria afirmar….UM OLHAR DE PEIXE MORTO….

    Um ser humano……só é humano para quem ama.

    E para quem ama…..o ser amado é anjo.

    Não importa quem seja.

    Quem ama de verdade não vê defeito,feiura,nada…

    Quem ama,ama por amar…..simples assim.

    Sou cunhada de médicos,sou tia de médicos,amiga de médicos……e sei
    bem como é viver pedidndo favores…..para estes anjos que trocaram as asas por braços.

    Graças a Deus! Meus médicos são seres humanos….de altíssimo nível.

    Jamais se recusaram a ajudar.

    Eles também enfiariam os pés no barro,se fosse necessário.Tenho certeza.

    E são esses seres humanos que salvam nossos sonhos e nossa esperança neste planeta.

    Para ser humano é preciso ter um pouquinho do brilho dos anjos,para ser humano é preciso amar outros humanos.

    Como os médicos,como os santos,como os loucos.

    Eu QUERO meu nome na lista dos que querem
    manter intacta sua humanidade.

    Eu quero amar sempre…… muito bem ou muito mal,mas nunca deixar de amar.

    • romacof Says:

      Conto uma: Um profissional da área, depois de suspirar a sua profunda pena por minha indignação me perguntou se eu pagava a faculdade de meus filhos com a ética. Eu não deveria ter respondido verbalmente, mas disse que quem pagava a faculdade dos meus filhos eram os meus pacientes atendidos conforme a ética. Em trinta anos eles continuaram voltando à consulta mesmo com todo o aparato tecnológico hoje existente por aí e mesmo com todos os especialistas novinhos em folha e muito melhores do que eu nas filigranas das descobertas sem fim. Eles consultam com o top da área, pagam uma baba, são virados do avesso e recebem uma conduta a seguir. Depois vão ao consultório do velho Romacof perguntar se aquilo que o especialista disse está certo e se ele pode confiar na prescrição. Isto não se consegue chupando o fígado do paciente. Isto se consegue esquecendo que há uma faculdade a ser paga.

  2. Li Says:

    Podes dar uma olhadinha neste link ?

    É muito interessante,vais gostar,eu acho.

    Blog Vinculando……………
    http://vinculando.org/documentos/cuentos/medico_en_busca_del_ser_humano.html

    • romacof Says:

      Belo achado! Acredito que o médico não precisa de publicidade, anúncios, reclames, e intervalos comerciais. Se ele não for conhecido de forma positiva pelo que faz deve ensacar a viola e ir cantar noutro lugar. Em relação ao link que você me passou acho que era isto o que eu pensava! Eu queria ser o feiticeiro…

  3. Li Says:

    Eu também,rs.
    Cresci num lugar onde não existia médicos.
    Existiam os curandeiros.
    E os curandeiros eram mágicos,com suas ervas,raízes,chás,unguentos,benzeduras…com seu conhecimento tinham o poder de amenizar a dor.
    De transformar a angústia.
    Minha mãe era parteira,benzedeira,conselheira…e muitas outras coisas.
    Aquele mundo estranho me atraia e encantava.
    Ver os médicos como enviados de Deus foi só uma consequência desse olhar.

    Até hoje…..tenho orgulho dos bons médicos que conheço.
    E conheço muitos.
    Gente fantástica que honra um juramento de salvar vidas.
    E acredito que ter nas mãos o poder de salvar uma vida,vale qualquer sacrifício.
    Este poder está acima de tudo.

    Muitos profissionais da Saúde se tornaram prisioneiros da burocracia,dos laboratórios,do
    status…do dinheiro.

    Que esses jamais sejam a regra.


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