O Debate das Pulgas!

                                                          

 

Eu não acredito! Você pode até acreditar! Mas eu estava lá e os elementos matemáticos desenhavam-se paradoxalmente nítidos e indeterminados para se chegar a uma conclusão definitiva. Dirão: “você não tem fé!” É. Tenho fé que talvez esta seja uma ponderação exata.

 

Eu estava fora! Fora! Do lado de fora daquilo que o conceito humano convencionou estar aqui! Alguns dirão: “você só apagou! É o mesmo que Juan fazia com Castañeda! Uma viagem! Uma peiotada hospitalar”. Até isto é possível!

 

Eu estava de peito aberto. Literalmente! Enquanto mãos hábeis revascularizavam um coração hipotérmico e uma máquina incógnita movimentava meu sangue para que a isquemia não se generalizasse.

 

Eu estava nu. Deitado no chão. Foi imediato como um bater de palmas. Eu estava aberto, mas toda a equipe empenhada em me trazer de volta se fora. Dois focos de luz iluminavam a cena. As luzes estavam direcionadas sobre um coração pálido e agonizante que sabia ser o meu, mas todo o restante deste ambiente insólito estava mergulhado na mais absoluta escuridão. Eu me via. E era nauseante. A cena não tinha a realidade de um sonho. Era mais real do que a lembrança imediata de ter teclado a lembrança imediata de ter teclado. Mas o eu que eu via deitado mantinha o olho esquerdo aberto. Bem aberto. Vendo. Não acreditando. Mas registrando para uma posterior análise!

 

Eu não estava só! Três indivíduos circulavam nas sombras a minha volta. Todos eram altos, magros, de pele clara, tinham cabelos cheios e grisalhos, e vestiam batas de cor crua. Os três eram extremamente parecidos, como gêmeos, e falavam entre si em tons baixos usando palavras que eu não conseguia compreender. Aparentavam apenas observar a cena da qual eu era o protagonista nu. Meu olho esquerdo aberto. Meu peito aberto.

 

Eu fumava. E fumava bem há 9 anos atrás. Perto de uns seiscentos centímetros por dia. Um dia, do alto da gruta de uma das mães de um dos filhos de um dos criadores olhei para baixo e vi cerca de cinco mil pessoas olhando na minha direção. É óbvio que elas não olhavam para mim! Todas aquelas pessoas estavam lá movidas por seu desejo de acreditar na essência espiritual personificada pela estátua aos pés da qual eu estava. Aquelas pessoas só tinham olhos para sua fé, para seus pedidos, para seus agradecimentos. Naquele momento aquelas cinco mil pessoas tinham um só pensamento.

 

Eu tinha um pensamento: abandonar o cigarro! Rapidamente pensei: “A santa que me perdoe. Não comungo da fé que vejo expressa na face destas pessoas. Vou parecer um vampiro da energia alheia. Mas se estes bilhões de neurônios, nestes cinco mil cérebros que estão voltados para cá, têm a força de pelo menos acender uma lâmpada, usem esta energia para mandar à merda o meu vício de fumar”.

 

Eu não fumei mais! Física? Filosofia? Poder da mente? A fé dos outros usada em meu benefício? Uma comunhão ímpar? Positivismo? Pragmatismo? Algo a ser catalogado para uma posterior análise!

 

Eu estava mariscando. Eram sete horas da manhã. Para quem não sabe: mariscar é arrancar um molusco bivalve de uma profundidade média de 40 centímetros a beira do mar. Uma atividade que requer um bom esforço braçal e cardíaco movimentando areia molhada. Uma hora depois fui chamado a Porto Alegre, pois minha mãe havia sido hospitalizada. Ao chegar a Porto Alegre minha movimentação e respiração se tornaram abruptamente difíceis e um quadro de angina foi se caracterizando. E por caminhos errados fui cair e enfartar no único lugar certo num raio de 2 mil quilômetros.

 

Eu já contei esta história em “Qual é a tua?” mas o enfoque agora é outro. O ciclo se fechou. Lá estava eu, nu, de peito aperto, deitado no chão, com os três incógnitos personagens ao meu lado. Meu olho esquerdo aberto.

 

Eu tinha um pensamento: se eu fechar este olho o momento mágico vai chegar. Volto para casa num pacote. Deixo na mão todos que de alguma forma dependem de mim. E tudo aquilo? E tudo aquilo que falta fazer? Se eu fechar o olho e acordar num imenso gramado de perus gordos estarei no céu de Kurt Vonnegut. Se acordar sentindo todas as dores que a morfina não apaga os caras tiveram sucesso? Fechei os olhos e acordei querendo ser um feliz e gordo peru, mas sem dores.

 

Apenas junte tudo.

 

Eu tenho duas pulgas atrás da orelha. Elas debatem acaloradamente. Uma argumenta sobre a convergência aleatória de probabilidades com resultados aqui positivos e ali negativos. Afinal em milhões de possibilidades não há quem ganhe a mega-sena a beira da bancarrota? Se dermos uma Remington a um macaco e alguns bilhões de anos ele não poderia produzir uma bíblia de dar inveja a Gutenberg? A outra pulga desdenha este pragmatismo que nega a imaterialidade. Ela só diz: “Apenas junte tudo”!

 

Eu vou ficar na minha. Recolhendo dados. Mas confesso que a conversa está ficando boa!

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5 Comentários em “O Debate das Pulgas!”


  1. […] tinha razão e o paraíso é um gramado infinito onde são criados perus gordos e felizes ( https://romacof.wordpress.com/2009/03/29/o-debate-das-pulgas/ ), ou, o nada (novamente este assunto inexistente) nos dá um grande tapa na cara; e aqui cabem […]

  2. Li Says:

    Castañeda, eu li,rs.

  3. Li Says:

    Faz um tempo….fui convidada para tomar chá na UV…uma beberagem amarga que nem jiló.

    Bebi e vi que parecia bem legal,mas que não era AINDA a minha praia.

    Não voltei mais e nem senti falta.


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