As verdades-para-uso-infantil que se transformam em mentiras-que-contamos-para-nós-mesmos.

 

…OU, O SAGU.

 

Todos nós temos nos depósitos da vida uma verdade-para-uso-infantil profundamente arraigada que um dia foi, abruptamente, violentada, transformada em mentira, ou fantasia, ou nada. Ela pode nos ter sido contada, ou nós a criamos e a incorporamos numa inferência a partir de observações capengas. Para alguns pode ter sido a revelação de que Noel não passa de um garoto-propaganda tropical se esvaindo em suores numa indumentária ártica. Quem pode avaliar o choque brutal para uma criança quando enfrentou a realidade de que os coelhos não botam os ovos de chocolate? ou a confusão na cabeça de meninos ou meninas de apartamento ao perceberem que a diferença entre os bois e as vacas não está nos chifres? O fato é que, quando este momento ocorre, quanto mais velho for o indivíduo, maior será o abismo gerado pelo confronto entre a idéia preconcebida e a verdade. Porém, com ou sem traumas, é saudável enfrentar e esclarecer as verdades-para-uso-infantil. Algumas, quando sobrevivem até a vida adulta, se apresentam como inofensivas incongruências exóticas. Outras, no entanto, se transformam nas perigosas mentiras-que-contamos-para-nós-mesmos.

Numa certa altura da vida os parâmetros que determinam nosso relacionamento com as outras pessoas já foram definidos. Toda a mecânica social estará fundamentada nessas premissas. Se as idéias básicas forem falsas os intercâmbios serão defeituosos.

(E não vamos nos aprofundar no longo e complexo capítulo que trata da gênese das opções primárias de um indivíduo por um dos extremos da cósmica composição dualista entre o bem e o mal – aqui há teorias para todos os gostos: desde o determinismo natural que gera o impulso em defesa da tribo em que a prole está inserida, num ato amplificado de preservação do próprio material genético, até a repetida e batida simplificação na má gerência político-econômica, passando pela falta de, ou pelo excesso de, religiosidade – nunca esquecendo que a nossa definição de uma verdade absoluta seria pretensiosa e unilateral! pois olhando para o gato com olhos de rato podemos até imaginar você como um fundamentalista cristão, orientado desde a teta da mãe para odiar o Islã!  educado e treinado para um dia jogar um avião contra a Caaba durante o Ramadã!  –  ganhando como prêmio o céu, com direito a cadeira cativa aos pés do criador, ouvindo os anjos cantando louvores  per omnia secula seculorum, amem! –  ou pelo menos esta seria a mentira que você contaria para você mesmo!)

Em nosso círculo conhecemos indivíduos que convivem com os demais aplicando sistematicamente uma moral torta. Eles são encontrados em todos os círculos, mas os cultos são os mais perigosos. Eles podem ter qualquer título: políticos, religiosos, médicos, advogados, jornalistas, professores, ou qualquer outro com os recursos ou meios para serem formadores de opinião. Mesmo cuspindo na cara deles uma demonstração de que não são maiores ou melhores do que os demais, ou de que seus atos tolhem a liberdade dos outros, ou de que o direcionamento de suas ações destrói a tentativa construtiva do grupo, o modo de pensar determinante de suas vidas já foi previamente definido alicerçado em uma verdade infantil transmutada em uma mentira auto-contada. A grande maioria jamais mudará.  O indivíduo que acredita nas mentiras que conta não está tentando, em princípio, fazer o mal. Ele realmente acredita no que está dizendo ou fazendo, nem que tenha que justificar o próprio modo de vida como fruto da vontade divina. Algo como:“Todos os brinquedos são meus! Só meus! Eu primeiro vou matar você, depois eu vou poder brincar sozinho! porque Deus quer que seja assim!” Ele é a personificação da verdade-para-uso-infantil que sobreviveu.

Foi imensurável a decepção quando soube que não existiam saguzais! Nem um único saguzeiro em que pudesse descansar a sombra de sua frondosa copa! Nunca colheria suas vagens verde-pálidas em cujo interior macio e peludo se enrodilhavam os pequenos grãos de sagu! Esta verdade-para-uso-infantil que sobreviveu até os meus quarenta anos foi cruelmente destruída pela leitura de uma caixa de maizena.  

 

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3 Comentários em “As verdades-para-uso-infantil que se transformam em mentiras-que-contamos-para-nós-mesmos.”

  1. Li Says:

    É um prazer ler seus textos…..e melhor ainda descobri-los,rs.

    E acredite…..eu o descobri por pura curiosidade,ou espírito de aventura,e não por
    indicação de amigos.

    • romacof Says:

      Salve Sra Li. Obrigado por suas palavras que acabam de aumentar e muito a minha responsabilidade pois agora eu sei que tenho uma leitora. Saudações.

  2. Li Says:

    Sou uma leitora esqusita…gosto de tudo que me ajude a ser uma criatura melhor.

    E acredito que sou inteligente o bastante para aprender com quem sabe para ensinar.

    Considerando que nem todos que sabem são capazes de ensinar,rs.

    Fico feliz em constatar que existe vida
    inteligente no mundo virtual.

    Meus amigos blogueiros não gostam muito de escrever,rs.


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